H REVISTA FRAUDE

Ano 14 | 2017 - nº15 - Salvador/Bahia

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Inspiradas em obras já existentes, as fanfics não impõem limites para a criatividade dos fãs

 

texto: Caroline Magalhães e Maria Marta Lima

ilustrações: Eduardo Bastos

Inspiradas em obras já existentes, as fanfics não impõem limites para a criatividade dos fãs

 

texto: Caroline Magalhães e Maria Marta Lima

ilustrações: Eduardo Bastos

Imagine que você assista a um filme incrível. Você amou cada parte daquela experiência – só que ela chegou ao fim. Então, seja por não gostar de alguma cena ou por não querer dizer adeus à história, decide “tomar as rédeas” e criar uma outra narrativa baseada naquela obra. Essas histórias são as fanfics (do inglês, fanfiction: fan, ‘fã’, + fiction, ‘ficção’), textos ficcionais criados por e para fãs inspirados nos mundos dos quais gostam tanto.

Neste mundo ficcional, tudo é possível. A criatividade dos fãs que escrevem fanfics – os ficwriters – abrange, com um vocabulário próprio, desde mudar o final de obras clássicas até criar uma realidade onde homens podem engravidar ou personagens shakespearianos podem conhecer o galã da última novela. Na posição de autores, os ficwriters exploram os limites da literatura abordando o filme, livro, série ou jogo pelos quais são apaixonados.

A escritora Letícia Alves, 27, conheceu essas histórias aos 10 anos, quando decidiu pesquisar sobre a saga literária Harry Potter na internet. “Na pesquisa, surgiu uma história que, para mim, era o novo livro. Eu pensava ter invadido o computador da J.K. Rowling [escritora dos livros], até que me deparei com o Harry beijando a Hermione. Então descobri que se tratava de uma fanfic”, conta. A partir daí, Letícia passou a escrever fanfics, e, mais tarde, livros autorais.

Este subgênero ficcional não é novo – as fanfics surgiram nos anos 1960, a partir das fanzines (revistas criadas por fãs sobre suas obras favoritas). Com a ascensão dos blogs, se desenvolveram para sua forma atual. Raquel Nemui, 35, é uma revisora de textos que pesquisou, em sua dissertação de mestrado, as fanfics. Na pesquisa, intitulada “O ficwriter e o campo da fanfiction: reflexão sobre uma forma de escrita contemporânea”, Raquel afirma que “após a difusão da internet, no final da década de 1990, os fãs começaram a construir suportes para facilitar a visualização das fanfictions”.

As proporções que o fenômeno alcançou na internet são maiores do que se imagina. O site americano Archive of Our Own, que se declara “criado e gerido por fãs”, possui em seu banco de dados, entre fanfics, podfics (versões em áudio destas) e outros produtos feitos por fãs, mais de três milhões de trabalhos. Já o site brasileiro Fanfic Obsession, criado em 2009, conta com mais de nove mil fanfics em seu acervo, organizadas em categorias como “Heróis”, “Futebol” e “Restritas” (para maiores de dezoito anos).

 

ESCREVER FANFICS ME TORNOU UMA PESSOA MELHOR. CONHECI MUITOS AMIGOS ATRAVÉS DELAS

RAQUEL NEMU

Imagine que você assista a um filme incrível. Você amou cada parte daquela experiência – só que ela chegou ao fim. Então, seja por não gostar de alguma cena ou por não querer dizer adeus à história, decide “tomar as rédeas” e criar uma outra narrativa baseada naquela obra. Essas histórias são as fanfics (do inglês, fanfiction: fan, ‘fã’, + fiction, ‘ficção’), textos ficcionais criados por e para fãs inspirados nos mundos dos quais gostam tanto.

Neste mundo ficcional, tudo é possível. A criatividade dos fãs que escrevem fanfics – os ficwriters – abrange, com um vocabulário próprio, desde mudar o final de obras clássicas até criar uma realidade onde homens podem engravidar ou personagens shakespearianos podem conhecer o galã da última novela. Na posição de autores, os ficwriters exploram os limites da literatura abordando o filme, livro, série ou jogo pelos quais são apaixonados.

A escritora Letícia Alves, 27, conheceu essas histórias aos 10 anos, quando decidiu pesquisar sobre a saga literária Harry Potter na internet. “Na pesquisa, surgiu uma história que, para mim, era o novo livro. Eu pensava ter invadido o computador da J.K. Rowling [escritora dos livros], até que me deparei com o Harry beijando a Hermione. Então descobri que se tratava de uma fanfic”, conta. A partir daí, Letícia passou a escrever fanfics, e, mais tarde, livros autorais.

Este subgênero ficcional não é novo – as fanfics surgiram nos anos 1960, a partir das fanzines (revistas criadas por fãs sobre suas obras favoritas). Com a ascensão dos blogs, se desenvolveram para sua forma atual. Raquel Nemui, 35, é uma revisora de textos que pesquisou, em sua dissertação de mestrado, as fanfics. Na pesquisa, intitulada “O ficwriter e o campo da fanfiction: reflexão sobre uma forma de escrita contemporânea”, Raquel afirma que “após a difusão da internet, no final da década de 1990, os fãs começaram a construir suportes para facilitar a visualização das fanfictions”.

As proporções que o fenômeno alcançou na internet são maiores do que se imagina. O site americano Archive of Our Own, que se declara “criado e gerido por fãs”, possui em seu banco de dados, entre fanfics, podfics (versões em áudio destas) e outros produtos feitos por fãs, mais de três milhões de trabalhos. Já o site brasileiro Fanfic Obsession, criado em 2009, conta com mais de nove mil fanfics em seu acervo, organizadas em categorias como “Heróis”, “Futebol” e “Restritas” (para maiores de dezoito anos).

 

ESCREVER FANFICS ME TORNOU UMA PESSOA MELHOR. CONHECI MUITOS AMIGOS ATRAVÉS DELAS

RAQUEL NEMU

MUNDO (MAIS?) INCLUSIVO

        

A liberdade criativa que têm as fanfics dão espaço para que os fãs tornem suas obras favoritas mais inclusivas. Isso pode ser feito ao mudar o gênero de personagens, acrescentar pessoas negras ou indígenas a uma história que não as representa ou, ainda, criar casais (ou ships, na linguagem usada pelos ficwriters) do mesmo sexo, ausentes na história original.

É o caso, por exemplo, dos filmes do universo cinematográfico da Marvel Entertainment (MCU, na sigla em inglês). A franquia não possui nenhum personagem declaradamente homossexual nos seus filmes. Por outro lado, 50% das fanfics da MCU hospedadas no site Archive of Our Own retratam casais de gays ou lésbicas. Mayara de Angeli, 22, integrante da equipe do site Fanfic Obsession, acredita que os ficwriters escrevem “para suprir a necessidade dos temas que não existem nos livros e séries que consomem”.

Raquel Nemui enxerga que as minorias estão passando a usar as fanfics como forma de se representarem. “Vejo a fanfic apresentar-se cada vez mais como um instrumento de militância para alguns movimentos, como o feminismo, LGBT e outros”, fala. A escritora Letícia reitera a fala de Nemui ao considerar as fanfics um “espaço de luta”: “ao colocar uma pessoa fora dos padrões estéticos [na história], isto tem que ser explícito. Não falar é não assumir uma posição”, defende. Com essa tendência, os fãs não só conseguem criar histórias que representam minorias, mas também podem influenciar a inclusão delas nas próprias obras originais.

MUNDO (MAIS?) INCLUSIVO

        

A liberdade criativa que têm as fanfics dão espaço para que os fãs tornem suas obras favoritas mais inclusivas. Isso pode ser feito ao mudar o gênero de personagens, acrescentar pessoas negras ou indígenas a uma história que não as representa ou, ainda, criar casais (ou ships, na linguagem usada pelos ficwriters) do mesmo sexo, ausentes na história original.

É o caso, por exemplo, dos filmes do universo cinematográfico da Marvel Entertainment (MCU, na sigla em inglês). A franquia não possui nenhum personagem declaradamente homossexual nos seus filmes. Por outro lado, 50% das fanfics da MCU hospedadas no site Archive of Our Own retratam casais de gays ou lésbicas. Mayara de Angeli, 22, integrante da equipe do site Fanfic Obsession, acredita que os ficwriters escrevem “para suprir a necessidade dos temas que não existem nos livros e séries que consomem”.

Raquel Nemui enxerga que as minorias estão passando a usar as fanfics como forma de se representarem. “Vejo a fanfic apresentar-se cada vez mais como um instrumento de militância para alguns movimentos, como o feminismo, LGBT e outros”, fala. A escritora Letícia reitera a fala de Nemui ao considerar as fanfics um “espaço de luta”: “ao colocar uma pessoa fora dos padrões estéticos [na história], isto tem que ser explícito. Não falar é não assumir uma posição”, defende. Com essa tendência, os fãs não só conseguem criar histórias que representam minorias, mas também podem influenciar a inclusão delas nas próprias obras originais.

 

SÓ O SITE BRASILEIRO FANFIC OBSESSION CONTA COM MAIS DE NOVE MIL FANFICS EM SEU ACERVO

 

FICÇÃO SOBRE PESSOAS REAIS

As fanfics surgiram relacionadas a personagens fictícios, mas, com o passar do tempo, os fãs começaram também a retratar pessoas reais em suas histórias. Chamado de RPF (real person fiction, ou, em português, ficção de pessoa real), este tipo de história costuma ter como foco famosos ou figuras históricas, e normalmente criam ships com os próprios fãs ou com outras celebridades. Os enredos resultantes são, no mínimo, curiosos: imagine um mundo onde Justin Bieber e Faustão têm um relacionamento; ou onde os jogadores de futebol James Rodriguez e David Luiz são namorados; ou ainda, um mundo no qual Josef Stálin e Selena Gomez se apaixonam. Tudo isso existe dentro das fanfics.

Neste gênero, é ainda mais comum que os fãs literalmente se “insiram” na história. São as fanfics interativas, nas quais o nome do leitor é colocado no texto, como se este fosse um personagem. Isto pode ser feito através de questionário respondido antes da leitura ou com o uso da segunda pessoa na construção do texto.

Para Yasmin Pedrosa, 20, que escreve fanfics sobre mangás, RPF é algo polêmico. “Quando as histórias retratam pessoas reais, primeiramente se acha engraçado. Depois, os retratados podem achar invasivo. Existem pessoas que não têm limites e que perseguem os famosos porque não diferenciam quem é o artista e quem é o personagem criado”.  

Um caso recente foi o da banda Fifth Harmony, girlband americana. Fãs do grupo criaram fanfics nas quais duas integrantes, Lauren Jauregui e Camila Cabello, teriam um relacionamento. Eles não apenas criaram as histórias fictícias, como também comentavam diariamente nas redes sociais das artistas sobre essa suposta relação. Em resposta, na sua conta do Twitter, Lauren afirmou que o ship era “invasivo, assustador, delirante, desrespeitoso” e que “você nunca fica tranquila com pessoas sexualizando você e suas amizades para o prazer doentio delas”.

 

SÓ O SITE BRASILEIRO FANFIC OBSESSION CONTA COM MAIS DE NOVE MIL FANFICS EM SEU ACERVO

 

FICÇÃO SOBRE PESSOAS REAIS

As fanfics surgiram relacionadas a personagens fictícios, mas, com o passar do tempo, os fãs começaram também a retratar pessoas reais em suas histórias. Chamado de RPF (real person fiction, ou, em português, ficção de pessoa real), este tipo de história costuma ter como foco famosos ou figuras históricas, e normalmente criam ships com os próprios fãs ou com outras celebridades. Os enredos resultantes são, no mínimo, curiosos: imagine um mundo onde Justin Bieber e Faustão têm um relacionamento; ou onde os jogadores de futebol James Rodriguez e David Luiz são namorados; ou ainda, um mundo no qual Josef Stálin e Selena Gomez se apaixonam. Tudo isso existe dentro das fanfics.

Neste gênero, é ainda mais comum que os fãs literalmente se “insiram” na história. São as fanfics interativas, nas quais o nome do leitor é colocado no texto, como se este fosse um personagem. Isto pode ser feito através de questionário respondido antes da leitura ou com o uso da segunda pessoa na construção do texto.

Para Yasmin Pedrosa, 20, que escreve fanfics sobre mangás, RPF é algo polêmico. “Quando as histórias retratam pessoas reais, primeiramente se acha engraçado. Depois, os retratados podem achar invasivo. Existem pessoas que não têm limites e que perseguem os famosos porque não diferenciam quem é o artista e quem é o personagem criado”.  

Um caso recente foi o da banda Fifth Harmony, girlband americana. Fãs do grupo criaram fanfics nas quais duas integrantes, Lauren Jauregui e Camila Cabello, teriam um relacionamento. Eles não apenas criaram as histórias fictícias, como também comentavam diariamente nas redes sociais das artistas sobre essa suposta relação. Em resposta, na sua conta do Twitter, Lauren afirmou que o ship era “invasivo, assustador, delirante, desrespeitoso” e que “você nunca fica tranquila com pessoas sexualizando você e suas amizades para o prazer doentio delas”.

As fanfics surgem de comunidades de fãs chamadas fandoms (em inglês, a mistura de fan, ‘fã’, e kingdom, ‘reino’), que reúne pessoas aficionadas por uma mesma obra. Esse grupo de pessoas se une não só por este amor, mas também pelas produções - vídeos, montagens, histórias, cosplays, desenhos, etc - que eles mesmos criam e consomem. Os fandoms promovem a criatividade e conexão, e as fanfics, seu fruto mais conhecido, não são diferentes.

Para Raquel, as histórias a ajudaram a superar problemas pessoais. “Escrevo para escapar e, ao mesmo tempo, enfrentar os meus problemas. Escrever fanfics me tornou uma pessoa melhor. Conheci muitos amigos através delas”, afirma. Mas logo se contradiz e completa: “exceto quando deixava de estudar para alguma prova, por exemplo, para escrever”. Já Mayara acredita que as histórias são uma forma de divulgar o que produz. “Já escrevia antes, mas não tinha onde publicar. Com os sites de fanfics, posso apresentar [minhas histórias] para o mundo, mesmo que poucas pessoas leiam”, conta.

 

As fanfics surgem de comunidades de fãs chamadas fandoms (em inglês, a mistura de fan, ‘fã’, e kingdom, ‘reino’), que reúne pessoas aficionadas por uma mesma obra. Esse grupo de pessoas se une não só por este amor, mas também pelas produções - vídeos, montagens, histórias, cosplays, desenhos, etc - que eles mesmos criam e consomem. Os fandoms promovem a criatividade e conexão, e as fanfics, seu fruto mais conhecido, não são diferentes.

Para Raquel, as histórias a ajudaram a superar problemas pessoais. “Escrevo para escapar e, ao mesmo tempo, enfrentar os meus problemas. Escrever fanfics me tornou uma pessoa melhor. Conheci muitos amigos através delas”, afirma. Mas logo se contradiz e completa: “exceto quando deixava de estudar para alguma prova, por exemplo, para escrever”. Já Mayara acredita que as histórias são uma forma de divulgar o que produz. “Já escrevia antes, mas não tinha onde publicar. Com os sites de fanfics, posso apresentar [minhas histórias] para o mundo, mesmo que poucas pessoas leiam”, conta.

 

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