H REVISTA FRAUDE

Ano 14 | 2017 - nº15 - Salvador/Bahia

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texto Eduardo Bastos e Levy Teles
fotos Maria Carolina/Labfoto

 

Luzes se apagam, celulares são desligados e o silêncio predomina entre o público. Procedimento habitual do início de uma peça de teatro, a partir desse momento, o ator pode mudar o seu nome, os seus trejeitos e sua vestimenta para tornar-se, então, personagem. Essa é a arte da interpretação.

De uma sala do teatro Vila Velha, se inicia En(cruz)ilhada. Pode-se ver um homem caído no chão, sendo reanimado por um desfibrilador. A peça segue com o mesmo indivíduo, um homem negro, sozinho em cena, perseguido por comentários racistas em situações cotidianas, emitidos por sonoplastia. Silencioso, apenas sua expressão facial e corporal torna visível seu desconforto com os comentários.

 

 

O ator Leno Sacramento, 41, se torna, em En(cruz)ilhada, um protagonista sem nome, sem idade e sem voz. Apesar de ter sido a partir de suas próprias experiências que construiu seu personagem, o artista vê como desafio renunciar sua personalidade. “Fazer o personagem e não falar é a coisa mais difícil, porque ele apenas ouve. Por isso, não pode reagir [ao racismo]”, afirma.

O trabalho realizado na peça foi fruto dos seus 21 anos no Bando de Teatro Olodum, companhia surgida em 1990. O Bando tem um método próprio de construir o personagem: o laboratório. “É sair e ver como as outras pessoas o veem. É estar dentro de você mesmo e ver como o seu personagem vive no dia a dia. Eu coloquei tudo que vivenciei no espetáculo”, fala Leno.

texto Eduardo Bastos e Levy Teles
fotos Maria Carolina/Labfoto

 

Luzes se apagam, celulares são desligados e o silêncio predomina entre o público. Procedimento habitual do início de uma peça de teatro, a partir desse momento, o ator pode mudar o seu nome, os seus trejeitos e sua vestimenta para tornar-se, então, personagem. Essa é a arte da interpretação.

De uma sala do teatro Vila Velha, se inicia En(cruz)ilhada. Pode-se ver um homem caído no chão, sendo reanimado por um desfibrilador. A peça segue com o mesmo indivíduo, um homem negro, sozinho em cena, perseguido por comentários racistas em situações cotidianas, emitidos por sonoplastia. Silencioso, apenas sua expressão facial e corporal torna visível seu desconforto com os comentários.

 

 

O ator Leno Sacramento, 41, se torna, em En(cruz)ilhada, um protagonista sem nome, sem idade e sem voz. Apesar de ter sido a partir de suas próprias experiências que construiu seu personagem, o artista vê como desafio renunciar sua personalidade. “Fazer o personagem e não falar é a coisa mais difícil, porque ele apenas ouve. Por isso, não pode reagir [ao racismo]”, afirma.

O trabalho realizado na peça foi fruto dos seus 21 anos no Bando de Teatro Olodum, companhia surgida em 1990. O Bando tem um método próprio de construir o personagem: o laboratório. “É sair e ver como as outras pessoas o veem. É estar dentro de você mesmo e ver como o seu personagem vive no dia a dia. Eu coloquei tudo que vivenciei no espetáculo”, fala Leno.

 

 

A VIVÊNCIA DO ATOR NO TEATRO
 

EU ACHO QUE O PERSONAGEM SEMPRE EVOLUI.
DO PRIMEIRO DIA DE ATUAÇÃO PARA O ÚLTIMO,
É UMA EXPERIÊNCIA TOTALMENTE DIFERENTE

CLARA ROMARIZ
 

Uma vez que cada pessoa tem uma personalidade própria, a interpretação de um mesmo personagem será diferente de ator para ator. E até uma mesma pessoa pode mudar sua forma de atuação com o passar das exibições. “Acredito que o personagem sempre evolui. Do primeiro dia de atuação para o último, é uma experiência totalmente diferente”, pontua Clara Romariz, 20, atriz e assistente de dramaturgia da peça O Auto da Barca do Camiri.

Levado do palco dos teatros às praças públicas da cidade de Salvador, foi adicionado ao roteiro original um cortejo poético e uma intervenção no último ato. A preparação para um espetáculo aberto levou os atores a visitarem a rua todas as sextas-feiras. O método faz com que os atores lidem com o imprevisível fora dos palcos e o utilizem para fazer improvisações.

Da improvisação, Clara construiu os pequenos detalhes da sua personagem. “A ideia da Carmem, personagem do cortejo, é que ela brinca de ser criança. Todo dia eu fazia um texto ficcional sobre ela, e quando fiz o seu figurino e comecei a fazer as saídas para a rua, consegui ver o que ela fazia. Uma coisa que eu gosto dela, é que ela sempre anda por cima dos muros e beiradas dos passeios”, fala.

A construção também pode se dar sem que haja uma vivência em comum entre ator e personagem. É o caso do Protocolo Cidade, espetáculo criado pela professora de teatro da Universidade Federal da Bahia, Sônia Rangel, 69, e o grupo de teatro “Os Imaginários”. Retratando situações cotidianas interpretadas em dupla, os personagens da encenação não são fixos, tampouco têm história própria. “A ideia de Sônia foi que esse texto servisse para qualquer personagem, então não há referências sobre quem é ele. Qualquer situação se encaixa nesse texto”, fala Yarassarath Lira, 40, atriz. Bonecos, sapatos ou utensílios de engraxate ganham vida como personagens.

 

 

A VIVÊNCIA DO ATOR NO TEATRO
 

EU ACHO QUE O PERSONAGEM SEMPRE EVOLUI.
DO PRIMEIRO DIA DE ATUAÇÃO PARA O ÚLTIMO,
É UMA EXPERIÊNCIA TOTALMENTE DIFERENTE

CLARA ROMARIZ
 

Uma vez que cada pessoa tem uma personalidade própria, a interpretação de um mesmo personagem será diferente de ator para ator. E até uma mesma pessoa pode mudar sua forma de atuação com o passar das exibições. “Acredito que o personagem sempre evolui. Do primeiro dia de atuação para o último, é uma experiência totalmente diferente”, pontua Clara Romariz, 20, atriz e assistente de dramaturgia da peça O Auto da Barca do Camiri.

Levado do palco dos teatros às praças públicas da cidade de Salvador, foi adicionado ao roteiro original um cortejo poético e uma intervenção no último ato. A preparação para um espetáculo aberto levou os atores a visitarem a rua todas as sextas-feiras. O método faz com que os atores lidem com o imprevisível fora dos palcos e o utilizem para fazer improvisações.

Da improvisação, Clara construiu os pequenos detalhes da sua personagem. “A ideia da Carmem, personagem do cortejo, é que ela brinca de ser criança. Todo dia eu fazia um texto ficcional sobre ela, e quando fiz o seu figurino e comecei a fazer as saídas para a rua, consegui ver o que ela fazia. Uma coisa que eu gosto dela, é que ela sempre anda por cima dos muros e beiradas dos passeios”, fala.

A construção também pode se dar sem que haja uma vivência em comum entre ator e personagem. É o caso do Protocolo Cidade, espetáculo criado pela professora de teatro da Universidade Federal da Bahia, Sônia Rangel, 69, e o grupo de teatro “Os Imaginários”. Retratando situações cotidianas interpretadas em dupla, os personagens da encenação não são fixos, tampouco têm história própria. “A ideia de Sônia foi que esse texto servisse para qualquer personagem, então não há referências sobre quem é ele. Qualquer situação se encaixa nesse texto”, fala Yarassarath Lira, 40, atriz. Bonecos, sapatos ou utensílios de engraxate ganham vida como personagens.

 

 

O PERSONAGEM, A PLATEIA E O ESPETÁCULO

Clara é uma das atrizes que sentiram, no processo de construção do personagem, uma ligação com a plateia. Carregando consigo um envelope contendo papéis com frases de protesto, a artista enxerga nessas frases uma forma de interagir com o público. “No cortejo poético, eu fico em cima de um pedestal, como se fosse uma estátua. A cada pessoa que se aproxima e eu sinto uma conexão, entrego uma frase”, diz.

O personagem construído durante os ensaios ganha corpo quando enfim se manifesta em sua forma plena: no espetáculo. Na interação com os espectadores, o personagem se concretiza e, com o reconhecimento da recepção, ganha sentido. Leno reconhece como o público também determina o que o ator enxerga no personagem e na peça: “Durante a encenação, em forma de gestos, eu simulo entregar algo aos espectadores. Algumas pessoas abrem as duas mãos, outros, apenas uma, outros, apenas um dedo. Alguns interpretam ter recebido um doce, outros uma rosa”.


QUANDO ACABAMOS O ESPETÁCULO E A LUZ SE ACENDE, VIMOS PESSOAS CHORANDO. SENTIMOS QUE TOCAMOS AS PESSOAS E ELAS SAÍRAM DE UMA FORMA DIFERENTE QUE ENTRARAM
LENO SACRAMENTO
 

Para Leno, ele tenta provocar o sentimento de quem assiste. “Quando acabamos o espetáculo e a luz se acende, vimos pessoas chorando. Sentimos que tocamos as pessoas e elas saíram de uma forma diferente que entraram”, afirma.       

Mas até onde o ator havia se distanciado de sua personalidade?  A atriz Clara Romariz questiona essa ideia: “Acredito que sempre somos nós mesmos, mesmo fazendo personagens. Muitos acham que quando você atua, se torna outra pessoa. É verdade, mas você mantém sua personalidade. Essa é a graça do jogo”.

O PERSONAGEM, A PLATEIA E O ESPETÁCULO

Clara é uma das atrizes que sentiram, no processo de construção do personagem, uma ligação com a plateia. Carregando consigo um envelope contendo papéis com frases de protesto, a artista enxerga nessas frases uma forma de interagir com o público. “No cortejo poético, eu fico em cima de um pedestal, como se fosse uma estátua. A cada pessoa que se aproxima e eu sinto uma conexão, entrego uma frase”, diz.

O personagem construído durante os ensaios ganha corpo quando enfim se manifesta em sua forma plena: no espetáculo. Na interação com os espectadores, o personagem se concretiza e, com o reconhecimento da recepção, ganha sentido. Leno reconhece como o público também determina o que o ator enxerga no personagem e na peça: “Durante a encenação, em forma de gestos, eu simulo entregar algo aos espectadores. Algumas pessoas abrem as duas mãos, outros, apenas uma, outros, apenas um dedo. Alguns interpretam ter recebido um doce, outros uma rosa”.


QUANDO ACABAMOS O ESPETÁCULO E A LUZ SE ACENDE, VIMOS PESSOAS CHORANDO. SENTIMOS QUE TOCAMOS AS PESSOAS E ELAS SAÍRAM DE UMA FORMA DIFERENTE QUE ENTRARAM
LENO SACRAMENTO
 

Para Leno, ele tenta provocar o sentimento de quem assiste. “Quando acabamos o espetáculo e a luz se acende, vimos pessoas chorando. Sentimos que tocamos as pessoas e elas saíram de uma forma diferente que entraram”, afirma.       

Mas até onde o ator havia se distanciado de sua personalidade?  A atriz Clara Romariz questiona essa ideia: “Acredito que sempre somos nós mesmos, mesmo fazendo personagens. Muitos acham que quando você atua, se torna outra pessoa. É verdade, mas você mantém sua personalidade. Essa é a graça do jogo”.

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